Reportando-nos ao desenvolvimento do “eu”, a ontogênese pode ser examinada sob três aspectos: capacidade de conhecimento, linguagem e ação. A subjetividade da natureza interna é delimitada com relação à objetividade de uma natureza externa perceptível em relação à normatividade da sociedade e à intersubjetividade da linguagem. Partindo de Hegel e chegando até Freud, Piaget e Erickson, desenvolveu-se a idéia de que sujeito e objeto se constituem reciprocamente, que o sujeito só pode se tornar consciente de si mesmo em relação com, e na construção de um mundo objetivo.
Dentro da perspectiva piagetiana, a realidade objetiva no aspecto cognitivo é disponível para a manipulação. Para Freud, a esfera da interação aberta é explorada comunicativamente e guarnecida através de identificações. O ambiente diferencia-se nessas duas regiões, mas é integrado pelo fato de que cada uma dessas duas esferas de realidade estabelece interação com a outra. A linguagem, de resto, destaca-se das esferas objetais como região própria.
As psicologias cognitivas e psicanalíticas do desenvolvimento já recolheram provas evidentes em favor da afirmação de que a constituição do Eu realiza-se através de estágios de amadurecimento. No entanto, nenhuma das três concepções nos levou a uma teoria do desenvolvimento absolutamente convincente e definitiva, que permitisse definir de modo exato e empiricamente rico uma noção para a identidade do Eu.Procuraremos abordar neste momento, alguns aspectos que consideramos importantes em cada uma das três construções teóricas: psicanálise (Freud), piagetiana e psicossocial (Erick Ericson). Paralelamente, será exposta uma associação com características correspondentes às fases propostas por cada autor.
Fases do desenvolvimento infantil
• Fase oral - Freud
• Período sensório-motor - Piaget
• Fase oral-sensorial – confiança X desconfiança – Erikson
Para Piaget o início da vida de qualquer indivíduo, dos zero aos 1,6 anos de idade, é o período sensório-motor. Esse período é caracterizado pela conquista do ambiente por meio das percepções e do movimento. Tais percepções, inicialmente, não diferenciam o eu do mundo exterior. Assim, tudo que é percebido centra-se na própria atividade. Nesse período ocorre a progressiva construção de uma realidade interna paralela à construção do mundo exterior de forma objetiva. A criança entra em contato com os elementos da família, apresentando nas relações as primeiras habilidades motoras, que viabilizam a expansão das possibilidades de exploração do meio físico social. Portanto, a criança irá fazer uma conceituação de si a fim de se posicionar como um objeto que é diferente dos demais com quem ela convive, proporcionando, então, sua caracterização. Desta forma, terá desenvolvido recursos pessoais para resolver uma série de situações através de uma inteligência explícita ou sensório-motora. A função da inteligência nesse período é de diferenciar os objetos externos ao próprio corpo.
O período sensório-motor de Piaget corresponde à fase oral de Freud, que é a primeira fase da evolução libidinal. O prazer está predominantemente ligado à cavidade bucal e aos lábios – boca - que acompanha a alimentação. Na fase oral, o bebê sofre uma perda, pois ele teve que deixar o local - útero - que lhe era totalmente protetor. A partir do nascimento a criança terá que enfrentar o mundo e assim construir suas relações afetivas e intelectuais até que se torne uma pessoa que capaz de gerar proventos e auto-sustentação. O bebê nasce com dois processos biológicos básicos: incorporação, que faz parte do processo psíquico da introjeção, e eliminação orgânica, que está relacionada à projeção psíquica. Também pertence à constituição primária os reflexos posturais, defensivos e alimentares, que servem de base para os comportamentos e as funções corticais. Progressivamente esses reflexos tornam-se um comportamento adquirido, e o bebê passa a procurar o seio por reflexo. A fase oral tem duas etapas: sucção e sádico-canibal, quando a criança suga para a sua nutrição e quando manifesta sua energia agressiva sobre o objeto, que nesta fase ainda é sua extensão.
Para a psicanálise, o amor nessa etapa é estabelecido como um sentimento básico existente na relação da mãe com o bebê. No início deste período do desenvolvimento a criança e a mãe ainda estão fundidas e vivenciam um movimento de união plena. A criança vê o seio como sendo parte dela e não diferenciado de seu ser. Logo nos primeiros meses de vida, nesta experiência de plenitude, instaura-se o investimento narcísico primário. Esta fantasia de onipotência faz-se necessária para que haja o fortalecimento psíquico para o futuro afastamento e discriminação do bebê em relação à mãe. Este processo ocorre ainda na fase oral, quando o Outro passa a ser reconhecido fora e o Eu a se consolidar, formando os primeiros passos para a construção da identidade.
A conquista citada por Piaget pode ser vista como a "aquisição" do seio materno e da própria mãe, que encontramos na visão psicanalítica. Esta mesma etapa pode ser reconhecida na teoria psicossocial de Erick Erikson, que afirma existir na criança, na fase em questão, um sentimento básico de confiança que determina uma generalização de sua percepção para o mundo. Dessa forma, a abordagem de Erikson nos reafirma que, neste momento, a criança ama com a boca e a mãe ama com o seio. As situações de conforto proporcionadas pelo prazer da familiarização e as pessoas responsáveis por esse conforto tornam-se identificáveis para a criança. Em função da confiança e da familiaridade com a figura da mãe, o bebê atinge o estado de aceitação no qual aquela pessoa pode se ausentar momentaneamente, pois o bebê sabe que ela voltará.
• Fase anal - Freud
• Período pré-operacional - Piaget
• Fase locomotora-genital – autonomia X vergonha – Erikson
Esse período compreende a idade aproximada de 1,6 aos 7,0 anos de vida. Na etapa pré-operacional piagetiana ocorre o desenvolvimento ativo da linguagem que permite a utilização de esquemas práticos, anteriores, e a iniciação da capacidade de representar, ou seja, formar esquemas simbólicos. Tal processo é possível a partir da substituição de um objeto por outro, de uma situação por outra e de um objeto, pessoa ou situação por uma palavra. Nota-se também o predomínio do egocentrismo. O pensamento possui uma tendência lúdica, quando a realidade é distorcida e se confunde com a fantasia, e a própria criança não se distingue das outras pessoas e objetos, atribuindo características dos homens aos animais, vegetais e objetos assim como atribui causas humanas aos fenômenos naturais. Esse momento é visto como a fase do preconceito, quando a criança julga de acordo com o que ela está vivendo naquele momento, em função de sua realidade imediata. No âmbito linguístico surge a linguagem socializada, na qual a criança busca informar, comunicar através do diálogo. Utilizando a linguagem egocêntrica a criança fala sozinha, não apresentando a função de comunicação. No aspecto social, a criança se "desliga" da família para se inserir em um contexto com outras crianças, relacionando-se então com o brinquedo.
No que concerne à fase anal de Freud, é primordial citar que esta é caracterizada por uma organização da libido sob o primado da zona erógena anal; a relação de objeto está impregnada de significações ligadas à função de defecação e ao valor simbólico das fezes. É a fase de apropriação do controle. Considera-se um processo de troca, pois a criança dá a sua produção esperando a aprovação social. Essa etapa marca o início da fala e maior firmeza no caminhar. Ao conter os esfíncteres, a criança conecta-se com o seu poder e agressividade. Quando este momento é bem elaborado simbolicamente pode facilitar o desenvolvimento da independência e autonomia na vida adulta.
Para Erikson esse momento é o de formar, produzir. Para este pensador se institui a partir dessa produção a crise autonomia X vergonha. A criança quer descobrir a autonomia, a possibilidade de fazer, de caminhar; quer mostrar que não precisa de outra pessoa em seu auxílio, pois ela quer fazer sozinha, ou seja, locomover-se. A criança percebe que há obrigações, privilégios e limitações que são de sua responsabilidade. A criança deve ser encorajada a experimentar situações que solicitam exercício da livre-escolha. Desenvolver esta vontade própria significa adquirir uma força crescente de optar, decidir e exercitar o autodomínio.
• Fase fálica - Freud
• Período pré-operacional - Piaget
• Fase locomotora-genital – iniciativa X culpa – Erikson
Ainda a partir da elaboração anteriormente citada acerca do desenvolvimento da fase pré-operacional piagetiana, iremos associá-la à fase fálica da teoria freudiana e à fase locomotora-genital de Erikson. Este período percorre a idade de 3,6 a aproximadamente 6,0 anos de idade. Entre 3 - 4 anos de idade ocorre outra mudança no desenvolvimento infantil que passa da região anal para a região erógena-genital. Ocorre ainda uma base maturacional para viabilizar a mudança. Somente neste período a criança começa a ter sensação de prazer com estimulação da área genital. Um sinal deste aumento de prazer genital é que as crianças de ambos os sexos naturalmente começam a se masturbar. Neste período fica estabelecido o "conflito edipiano".Para a visão psicossocial de Erikson, nesta fase a criança começa a organizar as atividades em torno de um objetivo: tornar-se assertiva e agressiva. O conflito edipiano instala o desejo pelo genitor do sexo oposto e uma possível sensação de culpa em relação à figura parental do mesmo sexo. Como saída, a criança começa a tentar novos comportamentos de forma mais ativa, utilizando sua criatividade para dirigir-se ao mundo externo. Se houver sucesso neste comportamento será desenvolvida a iniciativa; caso contrário, pode exacerbar-se o conflito psíquico, pela criança desejar algo não aprovado socialmente.
• Período de latência - Freud
• Período operacional concreto - Piaget
• Período de latência - indústria X inferioridade - Erikson
Neste período, entre os 6,0 aos 12,0 anos, a energia da libido desloca-se temporariamente dos seus objetivos sexuais, em decorrência da contensão da energia edípica. Como esta energia é gerada constantemente e não pode ser eliminada ou reprimida totalmente, passa a ser canalizada para o desenvolvimento intelectual e social da criança. Começa neste momento um movimento sublimatório. Este processo traz ao período de latência a característica de não haver nova organização de zona erógena, ou de nova formação de fantasias básicas, não apresentando outras modalidades de relações objetais. É observado como período intermediário entre a genitalidade infantil e adulta. Esta fase associa-se ao período operacional-concreto da teoria de Piaget. Conforme este pensamento, observa-se um declínio do egocentrismo intelectual e crescente incremento do pensamento lógico. A realidade é estruturada pela razão, trazendo grandes aquisições intelectuais. Nesta fase, normalmente inicia-se a vida escolar que marca um período onde a criança não tolera as contradições no seu pensamento, ou ainda entre o pensamento e a ação. Ela necessita explicar de forma lógica suas idéias e ações. O julgamento torna-se conceitual, apresentando-se com grau acentuado de moralidade com tendência à interiorização.Para Erikson este período apresenta como característica a absorção de todas as capacidades culturais e normas básicas, inclusive as habilidades escolares e uso de instrumentos. A competência infantil aumenta rapidamente. A criança torna-se capaz de iniciar e finalizar uma série de atividades e projetos. O senso de produtividade se desenvolve no caso de esforços respeitados e bem sucedidos; caso contrário é desenvolvido um sentimento de inferioridade.
• Fase genital - Freud
• Período operacional-formal - Piaget
• Período genital da adolescência – identidade X confusão de papel – Erikson
Para a teoria freudiana, a fase genital que pode ser observada dos 12 aos 21 anos, constitui a possibilidade do sujeito atingir o desenvolvimento adulto normal. As adaptações biológicas e psicológicas foram realizadas. Com isso, a personalidade que começou a surgir quando criança vai sendo introjetada de forma progressiva. Este período, no qual desenvolveu-se a intelectualidade e a sociabilidade, passa então a permitir realizações. O sujeito torna-se capaz de amar de forma ampla, de definir um vínculo heterossexual de forma significativa e duradoura. Sua potência orgástica encontra-se energeticamente plena. Alcançando esta fase o sujeito estará potencialmente apto a sublimar sua libido em direção à produção e ao trabalho. Encontramos em Piaget esta fase relacionada ao período de operações formais. Isso significa a capacidade de formar esquemas conceituais abstratos e verbalizar com estes esquemas operações mentais regidas pelo princípio da lógica formal. Torna-se comum criticar os sistemas sociais e conseqüentemente apresentar novas condutas idealizadas. O indivíduo, ao adquirir tais capacidades, atingirá sua forma final de equilíbrio.
A crise de identidade X confusão de papéis de Erikson corresponde ao momento em que o adolescente adquiriu recentemente novas habilidades mentais. Este crescimento lhe permite pensar a respeito de si próprio e integrar uma série de diferentes imagens que havia desenvolvido de si mesmo. O indivíduo, agora autônomo, com iniciativa e produtividade, está mais apto a consolidar sua própria identidade. Ainda assim, para Erikson, o sujeito continua vinculado e dependente de seu lugar no meio sócio-cultural a que pertence. Portanto, esta autonomia é uma conquista a ser alcançada no decorrer de sua vida.
• Fase genital - Freud
• Período das operações formais - Piaget
• Fase genital - adultez – intimidade X isolamento - Erikson
Este período corresponde à idade de 21 a 45 anos, que foi descriminada por Erikson. Associa-se à fase genital da psicanálise e ao período de operações formais da teoria piagetiana. A abordagem psicossocial de Erikson aponta a ocorrência de uma busca por intimidade, parcerias e associações em seus relacionamentos sociais. Afirma que os jovens manifestam a verdadeira sexualidade genital com reciprocidade. O sujeito procura alguém para amar e se relacionar sexualmente partilhando um convívio de confiança. No entanto, é presente o risco do isolamento, pois o jovem pode evitar relacionar-se por temer o comprometimento. Erikson afirma que o isolamento temporário torna-se necessário para permitir que o sujeito execute escolhas. Este movimento não deve ser exacerbado, pois poderá causar sérios problemas de personalidade.
• Fase genital - Freud
• Período das operações formais - Piaget
• Fase genital meia-idade – generatividade X estagnação - Erikson
Encontramos correspondência entre as fases genital de Freud e operações formais de Piaget com a genital-meia-idade apontada por Erikson, verificada na idade que varia entre os 45 a 65 anos aproximadamente. Conforme Erikson, este estágio caracteriza-se pela produtividade, ou seja, pela relação com o que é produzido. Ocorre uma consolidação dos valores sociais antes internalizados, agora podendo ser transmitidos como forma de enriquecimento da personalidade nos aspectos psicossocial e psicossexual. Caso esta produtividade não ocorra e não possa ser expressa, a personalidade sofre uma regressão. Com isso, adquire um sentimento de estagnação e empobrecimento. Observamos nesse período um grande valor pela consideração do outro. Isso se efetua pela criação dos filhos, passar conhecimentos e supervisionar, buscando satisfação e realização.
• Fase genital - Freud
• Período de operações formais - Piaget
• Período genital - velhice integridade do eu X desesperança – Erikson
Deste último estágio, a partir dos 65 anos, Erikson afirma como característica principal a integridade. Após ter cuidado de várias pessoas, produzido idéias, percorrido sucessos e fracassos em sua trajetória, o sujeito busca colher os benefícios decorrentes das etapas anteriores. O seu estilo de vida e a integridade da cultura passaram a ser o seu patrimônio da alma. Porém a falta de expectativa em relação aos caminhos do ciclo vital do indivíduo, assim como o vazio nas suas relações sociais e históricas e o sentimento de impotência diante da morte, levam-no a um grau de desesperança.No processo de formação da personalidade na criança estará sendo desenvolvido o aspecto do Eu que dá a sensação de pertencimento a grupos. Isso faz com que o sujeito sinta-se, ao mesmo tempo, igual a todos os outros indivíduos e diferentes de todos eles no convívio grupal. A esse sentimento, Erikson denominou de integridade do Eu ou identidade pessoal. O sentimento de integridade percorre toda a trajetória do desenvolvimento humano, mas se intensifica no envelhecimento.
CONCLUSÃO
Encontramos nas três teorias analisadas o desenvolvimento através de estágios, ocorridos de forma sequencial e fixa. No entanto, apontamos para uma diferença importante em suas concepções: na teoria psicanalítica o sujeito não determina a seqüência de suas fases de desenvolvimento. O próprio desenvolvimento biológico vai manifestar em que região do corpo a libido será investida. Para Piaget, o grau de desenvolvimento biológico, ou seja, a maturação, também apresenta um papel fundamental, mas admite que isoladamente não é responsável pelo desenvolvimento infantil. Ainda para este autor, torna-se necessário que a criança procure de forma ativa, através dos processos cognitivos, o seu amadurecimento psicológico associado ao desenvolvimento orgânico.Podemos verificar na teoria piagetiana semelhanças com a abordagem psicossocial de Erick Erickson. Ambas evidenciam que conforme se processa a seqüência de estágios de desenvolvimento, o sujeito adquire novas possibilidades de lidar com o mundo. Apesar desta proximidade, as teorias divergem, pois Piaget dá mais ênfase aos processos cognitivos, embora reconheça que os fatores afetivos e sociais também são importantes, tendo em vista que é o desejo de aceitação pelo grupo que motiva a criança a procurar formas superiores de pensamento.
Erickson teve sua construção teórica influenciada pela psicanálise. Tendo sido membro da sociedade psicanalítica, segue uma série de preceitos freudianos quanto ao desenvolvimento da personalidade e à energia libidinal. Entretanto, aprofunda sua concepção de sociabilidade. Utilizando-se de suas pesquisas antropológicas, afirma que as sociedades criam mecanismos institucionais que propiciam e enquadram o desenvolvimento da personalidade. Mostra-nos ainda que as soluções para os mesmos conflitos humanos são dadas de maneira diferente, conforme os preceitos de cada cultura. As três teorias do desenvolvimento infantil mantêm, como finalidade e ênfase, o envolvimento do sujeito com o meio social e cultural onde está inserido. A criança percorre sua trajetória psíquica sendo afetada diretamente pelo ambiente em todas as etapas de seu crescimento. Ao mesmo tempo as crianças, uma vez que serão futuros adultos, determinarão a cultura em que seus sucessores serão recebidos. O ser humano é produto da sociedade e constrói as normas e regras de funcionamento deste grupo do qual faz parte. Na consciência deste movimento dialético poderemos interferir nos caminhos pré-determinados de qualquer cultura.
BIBLIOGRAFIA:
HABERMAS, J. Para a Reconstrução do Materialismo Histórico. São Paulo: Brasiliense, 1990.
HALL-LINDZEY. Teorias da Personalidade. São Paulo: Editora pedagógica Universitária, 1920.
RAPPAPORT, C. R., FIORI W. R., DAVIS C. Psicologia do Desenvolvimento, Vol. I, II e III. São Paulo: Editora PedagógicaUniversitária,1981.
Tel:(21) 2204-2699 - Núcleo de Novas Abordagens em Psicoterapia