Psicoterapia

Transtorno de Pânico : Basta Tratar o Sintoma ?

Por Marco Aurélio Mendes

Introdução

Os Transtornos de Ansiedade são muito freqüentes. Acredita-se que 24,9 % dos indivíduos irá apresentar em algum momento de suas vidas, algum tipo de Transtorno de Ansiedade (Kessler, 2005). Entre os Transtornos de Ansiedade mais comuns podemos citar o Transtorno de Ansiedade Social (TAS), o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e o Transtorno de Pânico.

Ansiedade e Origem do Transtorno de Pânico

A ansiedade é uma emoção comum a todos nós e se caracteriza por um estado de alerta e apreensão e pela presença de reações fisiológicas para defender o organismo diante de situações que possam causar algum tipo de perigo ou ameaça. Dentre essas reações podemos destacar a taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos), sudorese (excesso de produção de suor), tonturas, dificuldade de respiração, formigamento em algumas regiões do corpo, entre outros sintomas. Quando essas reações passam a ocorrer fora de contexto, ou seja, diante de situações que normalmente não deveriam causar ansiedade, passando a gerar prejuízos significativos ao indivíduo, podemos estar diante de um quadro que merece atenção e tratamento.

O Transtorno de Pânico, popularmente conhecido como Síndrome do Pânico, é um dos transtornos de ansiedade mais comuns entre adultos, apresentando uma prevalência de 3,5 % na população (Kessler, 2005). Muitas pesquisas vêm sendo realizadas para se entender as origens, a chamada etiologia, do Transtorno de Pânico. Alguns estudos mostram correlações entre o Transtorno e a Ansiedade de Separação na Infância (Manfro et al. 2002), bem como com o tabagismo (Valença et al. 2001). Há um consenso entre os pesquisadores porém sobre uma origem multifacetada do Transtorno de Pânico com fatores familiares, genéticos, culturais e sociais.

Nos consultórios, observamos que muitos pacientes e também alguns profissionais da área de saúde vêm banalizando o diagnóstico desse transtorno, confundido-o com os demais transtornos de ansiedade como o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e quadros de ataques isolados de pânico que não chegam a caracterizar um diagnóstico de Transtorno de Pânico. Um bom diagnóstico, ou seja, o chamado diagnóstico diferencial que exclui outras síndromes e transtornos, é de fundamental importância para que sejam realizadas corretamente técnicas adequadas de psicoterapia, para um bom planejamento psicoterapêutico e também para a indicação de medicamentos adequados, quando necessário.

Características do Transtorno de Pânico

O Transtorno de Pânico é caracterizado pela presença inesperada de ataques de pânico. Os ataques de pânico por sua vez, se caracterizam por um período de intenso desconforto, com o desenvolvimento abrupto de pelo menos quatro dos seguintes sintomas: palpitações ou taquicardia, sudorese, tremores, falta de ar, asfixia, dor ou desconforto torácico, náusea, tontura, desrealização ou despersonalização, medo de perder ou controle ou enlouquecer, medo de morrer, formigamento, calafrios ou ondas de calor (Kaplan, 2000).

Para diagnosticarmos então, o Transtorno de Pânico, pelo menos um dos ataques de pânico deve se seguir de uma intensa preocupação de se ter novos ataques ou da conseqüência dos mesmos como um medo generalizado de perder o controle ou de morrer. O indivíduo também deve apresentar algum tipo de alteração comportamental como passar a evitar lugares ou situações que a seu ver podem ser ameaçadoras e gerar novos ataques de pânico. Ainda para se diagnosticar o Transtorno de Pânico, os ataques não podem ser explicados por outros transtornos de ansiedade nem estarem relacionados aos efeitos de substâncias medicamentosas ou drogas.

Psicoterapia na Síndrome do Pânico

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem sido a mais indicada pelos profissionais da área de saúde para o tratamento do Transtorno de Pânico. Seu enfoque mais breve e diretivo permitiu o desenvolvimento de estratégias e protocolos de tratamento, com técnicas especificamente desenvolvidas para o tratamento não só do Transtorno de Pânico como de uma série de outros problemas como depressão, stress, fobia social, entre outros. Muitas vezes porém, a TCC é “acusada” por profissionais de outras abordagens de psicoterapia de ter um foco excessivo no sintoma, como se não buscasse a solução do problema , como ele foi gerado. Assim, as origens do Transtorno não seriam esclarecidas e tratadas e ele se “deslocaria”, apresentando outros sintomas, novos quadros, sem a solução definitiva.

Essa crítica é bastante injusta com os profissionais que aplicam a Terapia Cognitiva da maneira adequada, que é a busca das construções dos significados para cada indivíduo: como ele formou o mundo à sua volta, como ele se vê, se observa, como enxerga as situações, quais são as suas crenças e verdades. A Terapia Cognitiva passa a ser assim um procedimento terapêutico necessariamente construtivista, o que não a impede de se utilizar as técnicas desenvolvidas para o tratamento.

Na clínica cognitiva pela qual desenvolvemos o nosso trabalho, procuramos explicar ao paciente que o trabalho se desenvolve em duas linhas paralelas, que em determinado instante do tratamento se cruzam e somam forças entre si. Durante as sessões, ensinamos técnicas de relaxamento, de controle da respiração, do deslocamento do foco e do aceite das sensações desagradáveis. No mesmo instante, ajudamos o indivíduo a verificar o porquê de sua vulnerabilidade, de como suas características pessoais (como o perfeccionismo exagerado, por exemplo) o seu estilo de vida e a evitação das situações ansiosas, contribuem para manter o quadro do Transtorno. Dessa maneira, o indivíduo se sente mais confiante e seguro para aceitar sua ansiedade e controlá-la , melhorando a sua auto-estima e realizando verdadeiras revoluções em sua vida.

Referências Bibliográficas :

Kessler RC, Demler O, Frank RG, Olfson M, Pincus HA, Walters EE, Wang P, Wells KB, Zaslavsky AM. Prevalence and treatment of mental disorders, 1990 to 2003. N Engl J Med. 2005;352(24):2515-23.

Gisele Gus Mafro, Luciano Isolan, Carolina Baya, Lissandra Santos e Maura Silva. Estudo Retrospectivo da associação entre Transtorno de Pânico em adultos e ansiedade de separação na Infância. Revista Brasileira de Psiquiatria, vol 24, n.1, 2002.

Kaplan e Sadock. Compêndio de Psiquiatria . Artmed, 2002.

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