A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem de psicoterapia que mais se popularizou nas últimas décadas, sendo bastante objetiva e direcionada para a solução de problemas. Uma das suas principais características é ser um modelo de psicoterapia baseado em evidências, ou seja, que já demonstrou eficácia no tratamento de diversas patologias, sendo isto comprovado através de amplas pesquisas científicas. É considerada por diversos estudos como o tratamento psicoterápico mais bem sucedido para Transtornos de Humor como a Depressão e Transtornos de Ansiedade como o Transtorno de Pânico e o Transtorno de Ansiedade Generalizada. A Terapia Cognitivo-Comportamental também é utilizada para o tratamento de pessoas que não tem nenhuma patologia específica mas que desejam se beneficiar do conhecimento adquirido pela experiência de psicoterapia.

Mas afinal o que é a TCC? O que a caracteriza e a faz um modelo de tão grande aceitação? Talvez possamos começar a explicar pelo próprio nome da abordagem: Terapia Cognitivo-Comportamental. O termo Cognitivo refere-se à cognição, palavra usada para descrever os processos relacionados ao pensamento, atenção, memória, entre outros. Comportamental por sua vez, refere-se à busca incessante da TCC pela promoção da mudança de comportamento, com a dupla paciente-terapeuta experimentando e criando situações nas quais antigas atitudes são colocadas à prova e novos repertórios comportamentais, considerados mais adaptativos e adequados pelo próprio paciente, são alcançados.

Para a Terapia Cognitivo-Comportamental existe uma integração entre pensamentos, emoções e comportamentos. Aquilo que penso sobre as situações e as coisas, faz com que eu tenha determinadas emoções e atitudes. Imagine que você está indo para sua casa à noite, caminhando pela rua que por sinal está muito mal iluminada. De repente, você começa a ver uma pessoa correndo em sua direção. Automaticamente, é muito provável que lhe venha à cabeça um pensamento como “serei assaltado”, acompanhado da aceleração dos batimentos do seu coração e tremor no corpo, que são algumas das reações corporais do medo. Por sua vez, seu comportamento poderá ser o de correr, gritar ou mesmo ficar paralisado. Acontece que, quando a pessoa se aproxima, você percebe que é alguém conhecido, como, por exemplo, um amigo que mora ali perto. Neste momento, o seu pensamento é “Ah....é o fulano...” Seus batimentos cardíacos voltam ao normal, os tremores no corpo e o medo acabam e assim você retoma o caminho para casa.
Observamos claramente então, a relação entre nossos pensamentos, emoções e comportamentos. Ao mudarmos a interpretação da situação e a forma de pensar, mudamos também as emoções e comportamentos. A idéia da relação entre o que pensamos e o que sentimos e fazemos, tão divulgada pela TCC, é bastante antiga. Filósofos antigos como Epiteto já diziam que não são as situações em si que trazem sofrimento ou problemas para as pessoas e sim as interpretações que fazemos delas.

No exemplo, os pensamentos que surgiram diante da situação e que provocaram emoções e comportamentos, são bastante lógicos pois não é de se esperar segurança nas ruas das nossas cidades atualmente. Nem todos os pensamentos porém, têm um caráter racional. Somos invadidos diariamente por vários pensamentos automáticos que nem sempre são realistas, sendo em sua grande parte fantasiosos. O criador da TCC, Dr. Aaron Beck, considera que os indivíduos em sofrimento emocional, possuem formas de interpretação da realidade rígidas e distorcidas que acabam afetando as suas emoções. A ansiedade e preocupação, por exemplo, podem ser decorrentes da tendência a interpretar qualquer dificuldade como um sinal de que tudo dará errado. Este pensamento irá gerar mais ansiedade e preocupação, afetando suas reações emocionais, podendo levar o sujeito a se desesperar e não encontrar uma forma adequada de solucionar a dificuldade. O estado de humor por sua vez, também influencia os pensamentos. Se nos sentimos deprimidos, tendemos a ter pensamentos em sintonia com a tristeza, como por exemplo, de que não temos força para fazer nada, de que nada irá mudar, etc.

Imagino que você deve estar se perguntando como é que a TCC funciona na prática. Então vamos lá! A TCC é considerada uma terapia focal. Geralmente, após uma entrevista inicial na qual o paciente relata quais são os seus problemas atuais, são definidos objetivos específicos a serem alcançados. O terapeuta vai buscar auxiliar o paciente na solução de problemas, mas sempre procurando entender a interpretação das situações e os pensamentos, emoções e comportamentos associados.

A intervenção da TCC é bastante focada no presente porém é muito importante conhecer o histórico do paciente. As interpretações atuais das situações decorrem do conjunto de crenças e regras desenvolvidas durante toda a vida da pessoa e que são influenciadas pelas mais diversas variáveis como situações traumáticas específicas, pelo ambiente da infância, por modelos proporcionados pelos pais, amigos, e ainda pela cultura. Quando o terapeuta percebe que o paciente está interpretando uma situação de forma rígida e exagerada, o que é muito comum nos indivíduos em sofrimento emocional, ele pode utilizar diversas técnicas como perguntas e questionamentos específicos. Mas atenção !!! O terapeuta não busca corrigir pensamentos, como se fosse um Mestre que soubesse tudo o que é melhor para o paciente. A TCC não é uma terapia do pensamento positivo como é acusada erroneamente por muitos. O terapeuta irá atuar para ampliar a possibilidade de interpretações das situações, ajudando na flexibilização.

Vamos exemplificar isto melhor com um exemplo do tratamento de um paciente.
Pedro (nome fictício), 32 anos, economista, chegou à TCC por insistência de uma amiga. Já havia feito terapia em outra abordagem mas não havia gostado muito. Achava tudo monótono, sem sentido, sendo que muitas vezes, queixava-se de ficar em um silêncio interminável durante os encontros. Na primeira sessão, disse ter sido diagnosticado com Transtorno de Pânico há mais ou menos 5 anos e que seu principal objetivo era este: tratar-se e parar de ter os sucessivos ataques de pânico que vinham ocorrendo.

Nas entrevistas iniciais, Pedro revelou que sempre foi uma criança muito frágil. Era o filho caçula de uma família de três irmãos, sendo o queridinho do pai e da mãe. Esta última sempre o protegia excessivamente. Não gostava que ele brincasse com outros meninos e até mesmo os irmãos, para que não houvesse conflitos pois quando Pedro perdia em um jogo ele chorava muito. Apesar disto, as outras crianças gostavam dele mas a falta de contato acabou fazendo com que Pedro não tivesse muitos amigos. Durante boa parte da infância, apresentou crises de asma recorrentes o que o impedia de correr e se divertir com outros da sua idade.

O primeiro episódio de pânico aconteceu logo após um momento de muita felicidade por ter passado em um concurso público. Estudou praticamente durante 3 anos sem parar, abrindo mão de todas as outras atividades. Estava andando na rua, voltando do centro da cidade, quando começou a se sentir mal. Suas mãos ficaram trêmulas, seu coração passou a bater muito rápido e o ar parecia que ia lhe faltar como nos velhos episódios de asma da infância. Parou para tentar respirar mas a sensação era muito ruim, como nunca havia acontecido antes. Ligou para a mãe que morava perto pedindo que ela o levasse para um hospital pois imaginou que fosse algum problema cardíaco.

Após ser examinado, o medico disse para que Pedro descansasse pois os exames não revelaram nenhum problema. Talvez, o estresse acumulado tivesse levado ao mal-estar. Pedro ficou mais tranquilo até que uma semana depois, passou a apresentar as mesmas sensações, retornando ao médico que então prescreveu remédios para ansiedade e psicoterapia.
Já nas primeiras sessões em TCC, após a coleta de dados iniciais, o terapeuta solicitou que Pedro levasse uma folha de papel para preencher, em uma espécie de registro no qual ele poderia anotar as situações que traziam ansiedade e os pensamentos que estavam acontecendo naquele momento. A maior parte dos pensamentos revelou o temor de suas próprias sensações corporais, como se estas fossem um sinal de novo ataque de pânico e também do exagero na visão negativa das coisas, como se o pior fosse sempre acontecer.
O terapeuta conversou abertamente com Pedro sobre o transtorno de pânico, quais as características do problema, o que ele podia esperar da terapia em TCC e do tratamento. Conversaram também sobre por que sentimos ansiedade, como é normal e natural nos sentirmos desta maneira, e como podemos acabar nos prejudicando ao tentar afastar ou não nos permitir sentir emoções desconfortáveis. O terapeuta explicou que, em pessoas com Transtorno de Pânico, as alterações das sensações corporais que acontecem normalmente com todos nós, podem ser interpretadas como um sinal de um novo ataque de pânico, deixando a pessoa ainda mais ansiosa.

Começaram então a realizar treinos de relaxamento, respiração e meditação para ajudar no controle da ansiedade. Pedro foi instruído a realizar estes exercícios diariamente, durante a semana. Ao ler os registros dos pensamentos, que mostravam sempre uma tendência a interpretar as situações de forma catastrófica, o terapeuta começou a perguntar a ele se aquele cenário tão terrível do futuro que vivia sendo criado em sua cabeça, era tão provável assim. Será que existiriam alternativas menos terríveis e mais possíveis de acontecer? Pediu então que ele continuasse a anotar os pensamentos ligados às situações de ansiedade para que verificassem juntos se ele tinha realmente a tendência de olhar sempre as coisas de forma catastrófica e, caso isto acontecesse, se haveria outra explicação para a situação ou para o futuro que não fosse a que Pedro estava pensando.
Ao discutirem na sessão os registros da semana, o terapeuta observou que Pedro, além de interpretar negativamente as situações, evitava conflitos sistematicamente. Preferia se calar diante de algo do que correr o risco de ser criticado. Diversos amigos lhe deviam dinheiro pois tinha vergonha de cobrar.

Pedro continuou a realizar os treinos de relaxamento em casa. No consultório, o terapeuta o instruiu para que ele experimentasse durante a sessão, respirar rapidamente, fazendo que a sensação de falta de ar da qual falava nos ataques de pânico, aparecesse e Pedro pudesse então regular as sensações e a emoção. Assim, o terapeuta o ensinou a usar técnicas de respiração e relaxamento nos momentos de muita ansiedade, permitindo que ele percebesse que era possível lidar com aquelas sensações desagradáveis, aceitando também a presença da ansiedade e das emoções desconfortáveis que tanto vinha tentando evitar.

Paralelamente a este trabalho, o terapeuta perguntou o que aconteceria de tão ruim se ele passasse a falar o que pensava para as pessoas, ao invés de sempre se calar. Pedro disse que nunca era bom entrar em conflito pois não ajudava a resolver os problemas. O terapeuta pediu que ele observasse as suas relações atuais e verificasse se a estratégia de evitar conflitos e não falar a verdade sobre o que sentia, lhe trazia amigos de verdade. Também perguntou se ele observava alguma relação entre a situação atual e a sua infância. Pedro imediatamente lembrou da mãe que nunca permitia que ele resolvesse as coisas sozinho. Percebeu que acabou desenvolvendo a crença de que nunca conseguiria lidar com situações de conflito, se fragilizando excessivamente.
O terapeuta então passou a realizar dramatizações no consultório, auxiliando-o a encontrar maneiras de se expressar adequadamente, aprendendo a dizer não. Gradativamente, Pedro foi conseguindo se expressar melhor nas relações sociais, ser mais assertivo e também se preocupar menos com a ansiedade. Juntos, elaboraram situações para Pedro testar as novas habilidades como experimentar diversas roupas em uma loja e não levar nenhuma, resistindo à insistência dos vendedores, algo que era muito difícil para ele até então. O terapeuta aproveitou as situações de sucesso para ajudá-lo a refletir sobre as antigas crenças de fragilidade e incapacidade, consolidando novas visões de si mesmo bem como do ambiente e das outras pessoas, que já não eram mais tão ameaçadoras como antes. Paralelamente a tudo isto, os ataques de pânico foram gradativamente diminuindo até pararem de acontecer.

Esta é a TCC. Uma terapia dirigida à solução de problemas mas que procura entender os significados construídos ao longo da vida e o sistema de crenças e valores do indivíduo. Buscamos a compreensão do problema atual em função do histórico de vida da pessoa, sem com isto deixarmos de verificar soluções no presente, no aqui e agora. A boa TCC é aquela que irá aproveitar as situações para auxiliar o indivíduo a ter uma nova visão de si mesmo, dos outros e do ambiente, em um processo de mudança bastante profundo e significativo.



Marco Aurélio Mendes – Psicólogo (CRP 05/31952). Mestre em Ciências (UFRJ). Psicoterapeuta certificado pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Membro da Diretoria da Associação de Terapias Cognitivas do Estado do Rio de Janeiro. Professor Auxiliar do Centro Universitário Celso Lisboa (RJ)
Contatos: marcs@terra.com.br Site: Nunap




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